Dor afeta 30% dos pacientes com câncer e OMS classifica sintoma como desnecessário

Existem vários medicamentos analgésicos disponíveis, mas ainda há resistência médica em usá-los, alerta especialista.

É um sintoma que garante a nossa sobrevivência.  Assim é a dor.  Quando o  estímulo chega ao nervo, este leva a mensagem rapidamente ao cérebro e o órgão, por sua vez, interpreta como um sinal de que algo está errado e responde com a dor. É ela que nos faz tirar a mão do fogo quando está queimando, por exemplo.

A dor é essencial, mas não a mesma sempre. Varia de intensidade, de acordo com o estímulo, que pode ser a batida do dedo do pé na quina de um móvel, a picada de uma formiga ou a fratura de um osso. Isso sem falar nos aspectos subjetivos, que influenciam como cada indivíduo lida com a dor, desenvolvidos por meio de experiências, com o sentimento no início da vida.  Mas, se ela existe para mostrar que algo não está bem, é esperado que seja breve e desapareça após o problema ser resolvido, correto? A questão é, no caso de uma doença que não tem cura, o problema é sem solução e, portanto, há a persistência da dor. Aliviar esse sintoma e proporcionar mais qualidade de vida aos pacientes tem sido, há décadas, a preocupação de médicos e demais profissionais da saúde que tratam de pacientes oncológicos.  Atualmente, 30% dos pacientes com câncer sentem dor.

Há trinta anos, a Organização Mundial de Saúde (OMS) já questionava os tratamentos existentes e defendia que a dor era um sintoma desnecessário. Em pleno século XXI, pacientes do mundo inteiro continuam sofrendo com ela.  Em 2014, nos Estados Unidos e na Europa, entre 52% a 82% dos pacientes com dor foram tratados de maneira inadequada, recebendo doses de medicamento menores que o necessário para o alívio do sintoma. Fato, esse, que levou a Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO), em 2018, a publicar um guia prático para o tratamento da dor em oncologia. Para o Dr. Gilson Delgado, médico oncologista e diretor técnico  do Instituto de Oncologia de Sorocaba (IOS), isso ocorre por desconhecimento dos profissionais da saúde em lidar com a questão. “A dor é preconizada entre médicos e enfermeiros da área oncológica, que tratam o assunto como se fosse assim mesmo. Dizem: ‘não vamos usar morfina, pois pode viciar. Este e outros mitos e conceitos que fazem as pessoas sofrerem’”, analisa o especialista.

A dor, no caso dos pacientes oncológicos, pode ser provocada pelo próprio tumor, que durante a disseminação exerce pressão nos nervos, ocasionando o sintoma. Também pelas cirurgias para a retirada dos tumores sólidos, pois o processo causa lesões, além das provocadas pelos tratamentos de quimioterapia e radioterapia. Os métodos empregados de analgesia variam de acordo com a intensidade da dor, explica Dr. Gilson. “Se a dor for menos intensa, são empregados analgésicos e, se for intensa, opioides. No Brasil, o uso de morfina e outros opioides estão liberados, mas os médicos ainda têm resistência em usar a quantidade necessária”, afirma o oncologista que soma 40 anos de experiência na área.

No Brasil, a expectativa é de 15 milhões de novos casos de câncer até 2020, segundo a OMS. Isso significa um milhão a mais do que no penúltimo levantamento feito em 2012.  Segundo Dr. Gilson, é passada a hora de dar dignidade a essas pessoas em um momento tão delicado. “Nossos pacientes não devem, não podem e não precisam sentir dor”, frisa.