Suporte familiar e psicológico: armas poderosas no combate ao câncer

Suporte familiar e psicológico: armas poderosas no combate ao câncer

  • Pesquisas indicam que esses apoios reduzem os índices de estresse e ansiedade nos pacientes em tratamento da doença.

O diagnóstico de câncer geralmente cai como uma bomba na vida da pessoa, exercendo grande impacto em todas as esferas, sejam elas: física, emocional, social e financeira.

Por mais equilibrado que seja, ninguém parece preparado para lidar com uma doença que traz consigo tantos tabus e receios. A medicina tem evoluído no sentido de buscar tratamentos e resultados cada vez mais efetivos e satisfatórios, mas o câncer ainda possui um estigma de “sentença de morte” dada ao doente e sua família. Não é raro que aconteça um processo de desestruturação familiar motivada por sentimentos de dúvidas que surgem a partir da confirmação do diagnóstico.

A professora Maria Célia Abreu, de 52 anos, sabe bem o que isso significa. “Quando soube que tinha um tumor maligno no seio, foi como se eu tivesse caído em um buraco bem fundo”, conta. Ela descobriu o câncer em 2017, após realizar o exame de mamografia. Então, passou por várias sessões de radioterapia, ciclos de quimioterapia e, quando se preparava para reconstruir a mama, foi surpreendida com a notícia de uma recidiva. “Foi muito triste! Precisei fazer uma cirurgia de emergência para a retirada de parte do seio. Se não fosse o apoio da psicóloga e da minha família, não sei o que seria de mim”, relata.

De fato, a psico-oncologia trabalha no sentido de dar esse suporte fundamental ao paciente, esclarece Dra. Rita de Cássia Rezende Maciel, psicóloga especialista em Oncologia e Luto do Instituto de Oncologia de Sorocaba (IOS). Este profissional atua no acolhimento do paciente fragilizado durante o tratamento de câncer. “Às vezes, a pessoa sente vontade de falar, de dizer coisas, desabafar e nem sempre a família é a mais indicada nesses momentos. O psicólogo entra como um ouvinte, sem julgamento”, explica. Somando mais de 15 anos de experiência na área, Dra. Rita é autora do livro “Câncer e Família: Mitos e Realidade”, escrito em parceria com o também psicólogo José Osmir Fiorelli. O livro é baseado em casos reais, vivenciados por pacientes que contaram suas histórias de enfrentamento da doença no núcleo familiar.

Um relato recorrente no consultório é que o paciente apresenta fases em que prefira o silêncio, no núcleo familiar, com tendência ao isolamento e a crises de humor. “É preciso entender que esses sintomas emocionais fazem parte da doença. O tratamento em si, além de doloroso, tem muitos efeitos colaterais, como alterações hormonais, queda de cabelo, náuseas e vômitos. A pessoa se sente vulnerável e precisa de tempo e espaço para vivenciar essa dor. Os pacientes sempre me perguntam se esses altos e baixos são normais e são, sim”, afirma a psicóloga do IOS.

Maria Célia procurou atendimento psicológico desde o início. Ela conta que isso foi muito importante, pois, em várias ocasiões, não queria falar com a família. “Meus filhos e meu marido me apoiaram muito, mas, por muitas vezes, eu só queria ficar na cama, chorando. Não queria falar com eles, mas, ao mesmo tempo, me sentia confortável de saber que estavam ali. Preferia desabafar com a psicóloga”, relembra.

A especialista do IOS explica que a família sofre junto quando percebe a dor do outro e não tem estrutura emocional para apoiar e ouvir. Não são raros os casos em que o paciente consegue levar a doença com certa leveza, mas os parentes precisam de apoio psicológico. “Eu já atendi pacientes que disseram estar bem e que não precisavam do tratamento, enquanto os familiares vieram até mim em busca de ajuda”.

Tudo é muito relativo durante o processo de tratamento, até mesmo, porque não existe uma única fórmula contra o câncer. A maneira como cada um encara e enfrenta a doença é subjetiva, destaca a psicóloga. Mas, é fato que os pacientes que recebem apoio, seja da família ou psicológico, sofrem menos com sintomas de ansiedade e estresse, comuns diante de situações de risco. Vários estudos baseados no comportamento de pacientes afirmam isso. “É fundamental que se tenha consciência que somos a união de nossa saúde física, mental e espiritual. Se o corpo adoece, é preciso tratar os outros dois aspectos juntos. É isso que percebo sempre no meu consultório”, finaliza Rita.

Curada da doença, Maria Célia segue com as sessões de terapia psicológica, o que tem ajudado no retorno à rotina. “Foi com a ajuda da psicóloga que, aos poucos, fui saindo daquele buraco e vendo que eu tinha chances. E, agora curada, noto que a minha percepção sobre a vida mudou, mas que ela continua valendo a pena!”.