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Hereditariedade não é a principal causa de câncer, afirmam especialistas

Os casos de cânceres hereditários são raros, sendo outros fatores mais determinantes para o desenvolvimento da doença, afirma o Instituto Nacional de Câncer (INCA). Isto é, em geral, esse mal não é herdado, embora a genética favoreça o aparecimento de alguns tipos dele.

Apenas cerca de 10% a 20% dos cânceres são hereditários. Ou seja, de cada dez diagnósticos da doença, entre um e dois têm a hereditariedade como causa, afirma Dr. Lúcio Roberto de Oliveira das Neves, médico oncologista com formação em Oncogenética do Instituto de Oncologia de Sorocaba (IOS).

Há mais de 70 tipos hereditários do mal, informa o especialista. Os mais conhecidos são: Síndrome de Câncer de Mama e Ovário Hereditários; Síndrome de Li Fraumeni; Síndrome de Lynch (também chamado de Câncer Colorretal de Herança não Polipoide); Síndrome de Von Hippel Lindau; Polipose Adenomatosa Familial; Neoplasias Endócrinas Múltiplas (Tipo 1 e Tipo 2); Neurofibromatose Tipo 1; Retinoblastoma Hereditário; dentre outros.

Os fatores congênitos favorecem o aparecimento desses grupos devido a alterações nos genes. Apesar de o mesmo material genético estar presente em todas as células, nem todos os genes estão ativos em todas elas, explica Dr. Lúcio. Essas diferenças no funcionamento do material genético são responsáveis por possibilitar às pessoas a aquisição de células diferentes ao longo do crescimento e desenvolvimento. Por isso, as células do cérebro, do coração, do couro cabeludo e as demais são distintas, mesmo tendo se originado a partir de uma única. Dessa forma, o gene alterado também possui maior ação em alguns órgãos do que em outros. “Portanto, há mais chance do surgimento de cânceres (hereditários) em alguns órgãos do que em outros. Para cada gene estudado, existem padrões de manifestação definidos”, esclarece.

O material genético presente nas células atua na formação do organismo. Durante a vida, ele se duplica inúmeras vezes, para gerar o ser humano. Em um determinado momento, um gene pode se diferenciar do original, fazendo a pessoa adoecer. Caso a mutação acarrete na divisão sem controle das células, ocasionará, consequentemente, o câncer. “O câncer é uma proliferação celular de forma desordenada, decorrente de uma alteração genética”, elucida o oncologista do IOS.

A mudança celular pode surgir ao longo da vida (mutação somática) ou já estar presente na formação, na primeira célula do corpo (mutação germinativa). A primeira situação é a mais comum, enquanto a segunda é rara. Sendo assim, o câncer hereditário ocorre quando o filho herda do pai e/ou da mãe a alteração genética. Isto é, uma mutação germinativa deletéria ou também chamada de mutação germinativa patológica. Nesses casos, o termo mais adequado é Síndrome de Câncer Hereditário, pois uma mesma mutação pode ocasionar diferentes manifestações, a depender da célula e do gene envolvido. “A herança de uma mutação germinativa patológica no gene BRCA1, de apenas um dos pais, aumenta a chance de aparecimento de câncer de mama e câncer de ovário e, quando esta mesma mutação é herdada tanto do pai, quanto da mãe – portanto, dos dois genitores -, pode, também, gerar mudanças na aparência física, na parte mental, causar anemias, dentre outros problemas”, detalha.

O médico oncologista indica que devem ficar mais atentas e buscar orientações especializadas as pessoas com vários casos de câncer na família; diversos casos de câncer na mesma pessoa; histórico (pessoal ou familiar) de câncer em idade mais jovem que o habitual, a exemplo de câncer de mama em mulheres com menos de 40 anos ou, ainda, de câncer com comportamento diferente do habitual. Também devem conhecer minuciosamente as características de seus corpos e estar alertas a possíveis alterações. No entanto, não há razão para pânico, pois há fatores modificáveis que podem estar envolvidos no aparecimento do mal. Os principais são o meio ambiente (fator externo) e hábitos não saudáveis de vida, a exemplo de má alimentação e do sedentarismo, reforça ele.

Oncogenética: prevenindo hoje para o futuro 

Além disso, essas pessoas podem fazer acompanhamento oncogenético, para averiguar a possibilidade de incidência da doença e iniciar estratégias para preveni-la, informa. A Oncogenética permite avaliar se o paciente possui uma chance maior do que da população habitual para o aparecimento de determinados cânceres. “Em algumas situações, é possível prevenir o surgimento de alguns cânceres e, em outras, pode-se construir uma estratégia de acompanhamento diferenciada, permitindo a detecção da doença em fases iniciais, o que aumenta, em muito, o sucesso do tratamento”, destaca Dr. Lúcio.

Para a realização dos testes genéticos, hoje mais acessíveis no Brasil, há alguns requisitos. O especialista deve conhecer o histórico pessoal e familiar da pessoa, bem como realizar completo exame físico nela. Se as informações obtidas indicarem a necessidade do teste, é preciso explicar ao paciente os motivos pelos quais ele deve realizá-lo. Por fim, cabe à pessoa decidir se deseja, ou não, prosseguir com a investigação. O exame é feito por meio da coleta de sangue, saliva e/ou pequena parte de material tumoral obtido por biópsias ou cirurgias.

Em caso da opção pelo exame e de um diagnóstico positivo, o tratamento deve ser iniciado o quanto antes. Em algumas situações, os cânceres hereditários podem ser tratados de maneiras diferenciadas, a fim de aumentar as chances de cura. Em relação a cânceres de mama e ovário, por exemplo, as partes podem ser retiradas antes mesmo do aparecimento do mal. Esse foi o caso da atriz Angelina Jolie, que ficou conhecido no mundo todo. Ela fez uma cirurgia preventiva de retirada das mamas, após um teste indicar alta possibilidade de diagnóstico da doença. Tipos particulares de cânceres de mama hereditários avançados também podem ser tratados com quimioterápicos específicos, a exemplo do Cloridrato de Pazopanibe, dentre outras alternativas.

Ainda não há tratamento curativo específico contra a síndrome hereditária propriamente dita. Conforme o oncologista do IOS, para se erradicar com êxito esse mal, é necessária uma terapia gênica capaz de corrigir a alteração genética em todas as células. Porém, esse tratamento ainda não está disponível. “É por isto que pessoas com Síndrome de Câncer Hereditário devem fazer acompanhamento durante toda a vida. Não para aumentar a angústia, mas, sim, para viverem da forma mais saudável e plena possível”, conclui.

 

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